A Promessa da América Central

A Promessa da América Central

Março 2015
Dino Sani   |   Head of Treasury Services, América Latina
Margaret Guevara   |   Head de Sales and Relationship Management, Mexico e América Central

Dino Sani e Margaret Guevara refletem sobre a economia próspera do Panamá, a expansão do Canal do Panamá e como os bancos podem ajudar as empresas a aproveitar importantes oportunidades comerciais*

Com fortes níveis de investimento, uma ambiciosa modernização do canal e esforços para incentivar ainda mais a diversificação do comércio, o Panamá é um país repleto de possibilidades.

A economia do Panamá continua a prosperar e, novamente, está no caminho de um forte crescimento em 2015. Embora as taxas de crescimento tenham reduzido um pouco de 10,9% e 10,8% observados em 2011 e 2012, respectivamente, o crescimento do Panamá em 2014 chegou a respeitáveis 6,5% com o crescimento de 2015 previsto para 6,1%. Esses níveis demonstram que o país está superando os demais países da região da América Latina e Caribe (ALC). A taxa de crescimento prevista para o seu concorrente mais próximo, A República Dominicana, é de 4,9% esse ano. Além disso, o país está liderando o grupo em termos de taxa de crescimento no hemisfério ocidental. Resumindo, a economia do Panamá está florescendo, e já pode se considerar entre as economias de crescimento mais acelerado do mundo.

Um dos principais motivos para esse crescimento, foi a ambiciosa expansão do Canal do Panamá, avaliada em US$ 5,25 bi. Previsto para ser concluído em 2016, o empreendimento deixará o canal mais amplo e profundo, dobrando sua capacidade atual e facilitando a passagem de muitas das grandes embarcações que atualmente não conseguem navegar por esse importante portal de comércio global e precisam encontrar rotas alternativas mais longas.¹

Essa melhoria será significativa. Por exemplo, com muitos navios Post-Panamax - como transportadores de GNL (Gás Natural Líquido), embarcações de minério e tanques de produtos químicos e petróleo líquido - prestes a poder atravessar as águas do Canal do Panamá, provavelmente o envio de gás natural, propano e petróleo líquido dos Estados Unidos para a Ásia aumentará consideravelmente.

O grande investimento deve ajudar o desenvolvimento do Panamá no cenário do comércio global, com estimativas de que o país continuará a observar taxas de crescimento de 6% a 7% durante pelo menos os próximos cinco anos, como resultado da modernização e do aumento do tráfego comercial pela rota. O canal é um dos ativos mais importantes para o comércio do mundo, e esse desenvolvimento continuará a promover a prosperidade no país, a despeito da concorrência.

Motivando a diversificação

Embora o Panamá deva grande parte de seu sucesso ao canal e tenha aproveitado sua posição geográfica estratégica como portal para o comércio, o país tem tido o cuidado de evitar uma total dependência desse canal. Em vez disso, buscou oportunidades em outros lugares para estimular sua força, adotando uma estratégia econômica voltada para a diversificação de suas fontes de receita.

De fato, com quase 100 bancos locais e globais atualmente registrados no país, o Panamá pode ser considerado um centro financeiro regional. Atraídas pela economia pró-dólar do país, por sua aderência às normas regulatórias internacionais e pela recém-anunciada parceria com a Euronuclear (uma empresa de serviços financeiros sediada na Bélgica e que ajudará a facilitar o acesso aos mercados de capital do Panamá pelos investidores globais), o fluxo de investimentos de empresas internacionais está levando a um crescimento de ativos de cerca de 10% ao ano no setor financeiro do país. Esse interesse internacional em estabelecer presença no local está sendo ainda mais incentivado pelos incentivos fiscais oferecidos pelo governo à empresas que estão se estabelecendo dentro de suas fronteiras.

Os setores de exportação e reexportação do Panamá também estão prosperando. Em 2013, o Panamá exportou US$ 17,5 bi em mercadorias e US$ 9,8 bi em serviços - totalizando US$ 27,3 bi e representando quase 65% do PIB do país. Além disso, está previsto que as exportações de mercadorias para 2014 e 2015 aumentarão para US$ 19,4 bi (crescimento de 10,6%) e US$ 19,9 bi, respectivamente. Entre as principais exportações estão o petróleo refinado, navios de passageiros e de carga, e medicamentos. O país também é conhecido por suas exportações de banana, café e açúcar. Diferentemente de boa parte dos países da região ALC, o Panamá não depende especialmente de commodities, o que significa que está bem menos vulnerável à queda de preços das commodities que atualmente afeta grande parte da região.

A Zona Franca de Colón do Panamá é o segundo maior centro de reexportações do mundo depois de Hong Kong, com uma ampla variedade de mercadorias (como itens de luxo e produtos eletrônicos) que chegam do mundo todo antes de serem reembalados e redistribuídos.² A aprovação da criação de uma segunda zona de comércio livre também foi concedida pelo governo do Panamá no início deste ano, um projeto voltado para atrair e incentivar o crescimento do setor agrícola no país.

Os níveis de comercialização com o Equador, a Venezuela, a Guatemala e a Costa Rica são significativos, e, como era de se esperar, os Estados Unidos são o principal destino de exportações inter-regionais do Panamá. A recuperação dos Estados Unidos da crise financeira - além do APC (Acordo de Promoção Comercial) entre EUA e Panamá que entrou em vigor em 2012 - ajudará a fortalecer o comércio entre esses países e servirá para impulsionar a economia já consolidada do Panamá.

O APC com os Estados Unidos é apenas um dos diversos acordos de comércio livre que o Panamá assinou ou está em processo de negociação para ajudar a promover o comércio e buscar uma maior integração econômica com os países ao redor do mundo (incluindo Taiwan, Cingapura, Canadá, México e a União Europeia). Ele também expressou interesse em se tornar membro da Aliança do Pacífico (junto com Chile, Colômbia, México e Peru), um bloco comercial que busca fortalecer os laços econômicos com a Ásia-Pacífico, região de crescimento mais acelerado do mundo e, portanto, um grande mercado para o comércio.

Além de buscar a diversidade em termos de rotas comerciais, o Panamá também incentivou diversos novos desenvolvimentos significativos em mineração, que ajudarão a diversificar (e aumentar) suas exportações. Estima-se que o subsolo panamenho possa conter US$ 200 bi em metal, principalmente cobre, mas também algumas reservas consideráveis de ouro. Para capitalizar esse recurso, o investimento no setor de mineração do Panamá entre 2009 e 2018 está previsto para atingir US$ 10 bi, com as exportações de metal do país previstas para chegar a US$2,5 bi por ano até 2019, e totalizando 10% do PIB do país (o percentual atual é 2,5%). O projeto da mina de cobre Cobre Panama (de propriedade da empresa canadense First Quantum Minerals Ltd), por exemplo, está previsto para custar US$ 6,4 bi e posicionará o país como um dos principais produtores de cobre do mundo, com uma produção de 320.000 toneladas por ano.³ Prevista para iniciar a produção em 2017, espera-se que a mina gere até US$ 100 mi por ano em royalties, com exportações anuais que totalizam mais de US$ 2 bi.

E o desenvolvimento de projetos ambiciosos no Panamá não para por aí. Na verdade, seu crescimento sem precedentes (cuja economia dobrou de tamanho entre 2007 e 2013), combinado com os fortes níveis de IDE (Investimentos Diretos Estrangeiros), possibilitou a realização de uma quantidade considerável de projetos de infraestrutura. Entre eles, a construção do primeiro sistema de metrô da América Central - com a entrada em operação da primeira linha em 2014 - e modernizações no Aeroporto Internacional de Tocumen e no Porto de Colón. De fato, o Panamá está liderando nos níveis de FDI na América Central, recebendo US$ 17 bi desde 2010. Os interesses de investimentos não mostram sinais de recuar, de modo que os fluxos de investimentos em 2013 chegaram a US$ 4 bi - o maior na história do Panamá - e valores recentes revelaram que o país recebeu mais de US$2,5 bi só na primeira metade de 2014.

As ferramentas do comércio

Considerando tudo, o Panamá está vivendo uma intensa atividade econômica, além de grandes transformações. Com esforços para diversificar ainda mais suas exportações e seus parceiros comerciais, uma abundância de melhorias de infraestrutura em andamento e a modernização do principal ativo do país (o canal), a posição do Panamá como facilitador comercial global parece bastante sólida.

Para as empresas, isso cria um número cada vez maior de oportunidades intra e inter-regionais pelo país. O que, por sua vez, significa que agora - mais do que nunca - elas estão buscando soluções eficazes de processamento de transações que ofereçam todos os elementos necessários para aproveitar as oportunidades apresentadas no atual cenário comercial de alto volume e cada vez mais globalizado. De fato, a tecnologia moderna e as altas expectativas em torno da velocidade e da conveniência estão motivando uma preferência crescente e em escala global por soluções sofisticadas que ofereçam eficiência, transparência e facilidade.

E o Panamá não é exceção. Na verdade, houve um aumento significativo no volume de transações conduzidas em conta corrente, uma tendência ainda mais incentivada pela confiança reavivada na economia global após a crise financeira. Certamente, um número crescente de fluxos comerciais entre Panamá e Estados Unidos evoluiu do uso de LCs (Letras de Câmbio) para serem operados em conta corrente. Além disso, o uso de LCs no Panamá caiu em 12% em 2014.

Dito isso, as LCs permanecem sendo um importante método de processamento de transações - ainda que não mais crescente - no país. Isso por conta de suas fortes propriedades de mitigação de riscos quando comparadas às transações operadas em conta corrente. Embora os exportadores possam estar preparados para usar o método de conta corrente com parceiros com quem tenham estabelecido um relacionamento de confiança, as novas parcerias comerciais com contrapartes desconhecidas em locais distantes ainda são compreensivelmente conduzidas com cuidado, por conta de uma maior incerteza e dos riscos que possam apresentar. E dado que os mercados emergentes estão se tornando cada vez mais proeminentes no cenário comercial global, essa é uma ocorrência bastante frequente. Na verdade, ainda que os efeitos da crise econômica estejam começando a se esvair, a herança deixada será a importância da segurança.

Embora as LCs tenham por muito tempo sido apreciadas pelo alto nível de mitigação de risco que oferecem, as empresas estão começando a aceitar, como forma de processamento no mundo moderno, que as LCs em papel podem nem sempre ser a solução ideal. A tecnologia está expondo o comércio em papel como um método complicado e ineficiente, especialmente se os documentos precisarem ser reenviados em caso de mudanças, o que pode resultar em atrasos onerosos. Por exemplo, é possível que o atraso de uma nota de conhecimento de embarque afete a entrega das mercadorias e os custos de trânsito gerais. O elemento de processamento manual, que envolve diversas partes, também torna esses instrumentos em formato de papel particularmente suscetíveis a erros. Além disso, o armazenamento dessas enormes quantidades de papel resultantes de cada transação manual é um desafio por si só.

Isso delega aos bancos a tarefa de oferecer às empresas métodos eficazes de processamento de transações que satisfaçam às demandas de hoje em dia: soluções multifacetadas que não apenas enderecem os requisitos modernos de eficiência e facilidade, mas também ofereçam a indispensável segurança nesse cenário comercial em constante evolução. E, dada a prosperidade e a rápida mudança da economia no Panamá, podemos esperar que a necessidade de um equilíbrio entre eficiência e segurança no processamento das transações comerciais ainda perdure por um bom tempo.

Lidando com as necessidades em constante evolução

Bancos locais buscam suportar as demandas em constante desenvolvimento de seus clientes. Oferecer tais soluções - que quase sempre exigem um investimento significativo no produto - pode se provar um desafio, especialmente quando também precisamos lidar com os atuais requisitos de conformidade regulatória e pressões orçamentárias.

A colaboração entre os bancos locais e os prestadores de serviços especializados em comércio global costuma ser uma solução eficaz. Certamente, as parcerias de não concorrência podem combinar o melhor dos dois mundos: soluções tecnológicas sofisticadas para atender às necessidades de processamento em constante mudança, assim como o conhecimento especializado inestimável dos bancos locais. A adoção dessa abordagem de fato oferece à empresa mais opções.

Os benefícios da colaboração também podem incluir a terceirização de funções de processamento para parceiros especialistas. A avaliação da documentação da LC, por exemplo, é uma tarefa que exige muito. É preciso ter uma quantidade considerável de recursos para dar conta dessas verificações abrangentes e detalhadas, e efetuar o carregamento confiável e eficiente dos dados. A terceirização dessa função para um prestador de serviços global hábil e experiente pode permitir que os bancos locais do Panamá dediquem uma atenção ainda maior ao relacionamento com o cliente, agregando valor real ao serviço de atendimento sem perder a capacidade de oferecer um suporte fundamental ao processamento.

É por meio dessa combinação de conhecimento e orientação, oferecida por parcerias locais-globais, que as empresas podem ter confiança de que estão bem posicionadas, com ferramentas eficientes e confiáveis em mãos para capturar as diversas oportunidades que essa próspera economia do Panamá tem a oferecer.

 

 

  * Dino Sani e Margaret Guevara são Chefes da Gestão de Vendas e de Relações para a América Latina, México e América Central no BNY Mellon. 

Este artigo foi publicado pela primeira vez na Trade & Forfaiting Review em maio de 2015, http://www.tfreview.com/feature/regions/full-central-american-promise, e está sendo republicado aqui com a permissão do proprietário dos direitos autorais. As opiniões apresentadas são apenas as dos autores, e podem não refletir as opiniões do BNY Mellon. O BNY Mellon é a marca corporativa do The Bank of New York Mellon Corporation e pode ser usada como termo genérico para se referir à empresa como um todo e/ou às suas várias subsidiárias de maneira geral. Nem todos os produtos e serviços são oferecidos em todas as localidades.